Chamas eram o mais comum. O típico pensamento que brotava da mente religiosa que temia mais uma punição do que desejava a redenção. Mas, antes dessa consciência se desenvolver, pedras lançadas e paus brandidos também eram eficazes.
O triste, entretanto, era ter sempre que recomeçar. Isso porque o recomeço implica, quase sempre, em fracassos anteriores, o que, mas cedo ou mais tarde, faz surgir a incômoda pergunta: "Pra quê?"
Quantos comecar de novo! Cada vez (mas nem sempre) acompanhado por algum novo aprendizado. Residências afastadas demais não desencorajavam visitantes não convidados. Tão pouco casas mal conservadas ou sombrias.
O princípio era interessante: tornar a casa o mais assustadora possível para que as pessoas evitassem se aproximar. Mas, se o temor pelo desconhecido afugenta alguns, a busca por esse desconhecido, acompanhada pelo desejo de desvendá-lo, representava um impulso ainda mais forte em outros. Daí que a obliviedade/invisibilidade tão desejada era substituída por uma notoriedade que, invariavelmente, levava à necessidade dos já mencionados recomeços.
"As pessoas são estranhas quando se é um estranho".
Esse saber revelou-se de uma sabedoria ímpar. Demorou um pouco, mas a precepção se instalou: tentar, simplesmente, se isolar mostrou-se, indubitavelmente, um erro crasso. Por isso a solução seria se misturar àqueles que deveriam ser evitados. E que melhor maneira de conseguir isso d que se transformando neles?
Claro, tal transformação é impossível, mas sempre existe o artifício do disfarce. E a casa deveria ser tal disfarce. A casa deveria ser o mais comum possível para, desta forma, mesmo que ainda relativamente isolada, ninguém a notasse.
Daí o intenso cuidado com a forma pela pela qual ela seria vista. A arquitetura, as cores, os detalhes, a atenção para fazer com quem passasse por ali a visse mas não a observasse, realmente.
O jardim, montado para ocultar ao máximo movimentações internas e as eventuais movimentações externas. Mostrava rigorosamente apenas o suficiente para que quem para lá olhasse se confortasse, que não sentisse a necessidade de imaginar o que não era visto.
Já a quase sempre constante fumaça que saía pela chaminé selaa de vez a impressã de que tudo ali era mais normal possível e que, mesm sem nunca terem visto ninguém que ali morava, ainda assim tivessem a nítida sensação de que eles estavam sempre por perto.
Foram anos vivendo assim, sem o menor aborrecimento ou ameaças. Mas, como constuma acontecer, em um momento; em um simples instante, todo esse trabalho pode ser jogado fora.
Por quê? Por que se arriscar daquela maneira?
Por quê? Por que o comportamento deles não pode ser completamente padronizado? Por que tem que haver aqueles que fogem da massa homogênea e se destacam dos demais?
E o mais importante: por que só agora?

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